A instalação-performática “Bailar no Escuro”, do duo Halisson Nunes e Verônica Lindquist, ocupa o Casarão Thomé, em Campo Grande, de sexta (6) a domingo (8), com cinco sessões gratuitas, porque propõe uma experiência sensorial que cruza dança contemporânea, literatura, artes visuais e tecnologia.
Presença radical em um espaço histórico
Antes de tudo, “Bailar no Escuro” transforma o Casarão Thomé em um território de escuta e atenção. Além disso, a obra convida o público a ocupar um único lugar — cadeiras e sofás do próprio casarão — e, a partir desse ponto fixo, acompanhar a ação cênica.
Assim, cada espectador constrói sua própria narrativa. Enquanto isso, a experiência se torna singular, pois depende do campo de visão e da relação íntima com o espaço. Segundo Halisson, não há deslocamento do público. Portanto, o olhar decide o recorte da cena.
Ao mesmo tempo, recursos tecnológicos atuam de forma sutil. Monitores e projeções mapeadas atravessam paredes e objetos. Dessa forma, imagens surgem, desaparecem e reaparecem, deslocando certezas. O que se vê nunca é inteiro. O que se escuta nunca está só.
Corpo, memória e camadas de linguagem
O projeto nasce da prosa poética homônima escrita por Verônica Lindquist durante a pandemia. No entanto, o texto não conduz a cena. Pelo contrário, ele se soma à dança e às artes visuais como mais uma camada de sentido.
Para a artista, a obra funciona por sobreposição. Assim, literatura, corpo e imagem dialogam sem hierarquia. “O texto não domina. Ele atravessa”, explica. Com isso, surgem reflexões sobre relações humanas, comunicação e presença no mundo contemporâneo.

Além disso, a ação performática se concentra simbolicamente no chamado “quarto de despejo” do casarão. Esse espaço, comum em casas antigas, acumula objetos, memórias e fragmentos de histórias. Portanto, torna-se metáfora viva de lembrança e esquecimento, atravessada pelo corpo do performer.
A cada sessão, nada se repete. Isso porque a obra é construída no agora. Não há coreografia fixa. Há ativação, escuta e relação com o espaço. Consequentemente, cada apresentação é única.
O casarão como organismo vivo
Erguido em 1947, o Casarão Thomé guarda parte essencial da história urbana de Campo Grande. Além disso, mantém um acervo de documentos, fotografias e objetos que atravessam décadas. Hoje, sob gestão da artista Miska Thomé, o espaço se consolida como polo cultural ativo.
Para Halisson, ocupar patrimônios históricos é também uma forma de pesquisa artística. Por isso, o casarão deixa de ser apenas cenário. Ele se torna organismo vivo, que respira junto com a performance.
Com duração de 40 minutos, a instalação ocupa três cômodos. Assim, esculturas, sons e imagens dialogam com a arquitetura e com o tempo. O resultado é uma atmosfera imersiva, fragmentada e sensível — como as memórias que habitam o lugar.


