O impacto das chamadas canetas emagrecedoras começa a ultrapassar a balança. Medicamentos da classe dos GLP-1, associados a marcas como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, já aparecem em mudanças no consumo de alimentos, na compra de roupas e até nas estratégias adotadas por grandes varejistas.
O fenômeno ainda está em transformação. Entretanto, pesquisas e movimentos recentes do mercado indicam que a popularização desses medicamentos pode criar novos hábitos de consumo — e fazer empresas repensarem produtos e serviços.
Um dos efeitos mais evidentes aparece justamente onde muita gente não imaginaria: no supermercado.
Menos comida no carrinho
Pesquisa divulgada pela Cornell University analisou dados de compras de dezenas de milhares de famílias nos Estados Unidos.
Nos seis primeiros meses após o início do uso de medicamentos GLP-1, os gastos das famílias com supermercado caíram, em média, 5,3%. Entre famílias de renda mais alta, a redução passou de 8%.
Além disso, os gastos em restaurantes de serviço rápido, como redes de fast-food e cafeterias, diminuíram aproximadamente 8%.
As mudanças não ocorreram da mesma maneira em todas as categorias.
Produtos ultraprocessados e mais calóricos registraram algumas das maiores reduções. Os gastos com salgadinhos, por exemplo, caíram cerca de 10%. Doces, biscoitos e produtos de panificação também perderam espaço.
Por outro lado, poucas categorias cresceram. Entre elas estavam iogurte, frutas frescas e barras nutricionais.
Os pesquisadores alertam, porém, que o estudo é dos Estados Unidos e não permite atribuir todas essas mudanças exclusivamente ao medicamento. Outros ajustes de estilo de vida podem ocorrer ao mesmo tempo.
O guarda-roupa também muda
A transformação começa a aparecer também nas lojas de roupas.
Com mudanças rápidas nas medidas corporais, consumidores podem precisar substituir peças ou descobrir novamente qual tamanho vestir.
Uma reportagem da Reuters publicada em agosto mostrou que varejistas americanos já observam esse comportamento. Pesquisa citada pela agência indicou que mais de dois terços dos usuários de GLP-1 consultados estavam mais propensos a comprar roupas presencialmente por causa das mudanças de tamanho.
Assim, algo que parecia caminhar cada vez mais para o comércio eletrônico pode ganhar outro componente: o provador.
Algumas lojas passaram a investir em atendimento personalizado, melhorias nos provadores e ferramentas para ajudar consumidores a encontrar novos tamanhos.
Um mercado ao redor das canetas
Outro movimento já aparece nas farmácias. Nos Estados Unidos, empresas começaram a desenvolver estratégias específicas para consumidores que utilizam GLP-1.
A farmacêutica Haleon, por exemplo, passou a posicionar produtos relacionados ao manejo de efeitos adversos comuns desses medicamentos em áreas específicas de lojas da CVS. Segundo a Reuters, as unidades participantes registraram aumento médio de 24% nas vendas desses produtos.
O movimento mostra como um medicamento pode estimular um ecossistema de consumo ao redor do tratamento.
Entretanto, isso também exige cautela. Náuseas, vômitos e problemas gastrointestinais estão entre os efeitos adversos associados à classe, e o tratamento deve ter acompanhamento profissional.
E a transformação pode continuar
A dimensão econômica dos GLP-1 ainda está sendo estudada.
Pesquisas recentes também tentam entender se os benefícios clínicos desses medicamentos conseguem reduzir outros gastos médicos ao longo do tempo. Até agora, os resultados não permitem concluir que os medicamentos se paguem por meio de uma redução geral das despesas de saúde.
Além disso, adesão, preço e interrupção do tratamento continuam sendo fatores importantes.
No estudo sobre alimentação, por exemplo, os gastos com comida voltaram a se aproximar dos níveis anteriores depois que participantes interromperam o uso dos medicamentos.
Portanto, ainda é cedo para dizer até onde vai essa transformação.
O que começa a ficar mais claro é que a expansão dos GLP-1 não movimenta apenas o mercado farmacêutico. Alimentação, restaurantes, moda, varejo e outros segmentos já começam a observar um consumidor com novos hábitos — e empresas tentam descobrir como responder a ele.

