Uma pessoa com depressão consegue rir? Pode sair com amigos? Ficar feliz ao receber uma boa notícia? Ter mais fome em vez de perder o apetite?
Sim.
A depressão nem sempre corresponde à imagem de alguém permanentemente triste, isolado, sem apetite e incapaz de aproveitar qualquer momento. Existem diferentes apresentações do transtorno e, entre elas, está a depressão com características atípicas.
Nesse quadro, alguns sinais podem parecer justamente o contrário do que muita gente associa à doença. A pessoa pode dormir mais, comer mais e apresentar melhora temporária do humor diante de acontecimentos positivos.
Por isso, reconhecer que algo não vai bem pode ser mais difícil.
Na reta final do Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio, entender essas diferenças também ajuda a combater uma ideia perigosa: a de que existe apenas uma aparência possível para o sofrimento emocional.
É possível sorrir e estar deprimido
Uma das características associadas à apresentação atípica é a chamada reatividade do humor.
Isso significa que uma experiência agradável pode provocar uma resposta positiva. A pessoa pode se divertir durante um encontro, demonstrar entusiasmo, sorrir ou ficar feliz com uma notícia.
Entretanto, esse momento não significa necessariamente que os outros sintomas desapareceram.
É justamente aí que amigos e familiares podem interpretar a situação de maneira equivocada.
Frases como “mas você estava tão bem ontem” ou “você saiu e se divertiu” partem da ideia de que alguém com depressão precisa demonstrar tristeza o tempo inteiro.
A realidade pode ser mais complexa.
Dormir e comer mais também merecem atenção
Outra diferença pode aparecer no sono e na alimentação.
Enquanto algumas apresentações depressivas podem provocar insônia e redução do apetite, quadros com características atípicas podem estar associados a sono excessivo e aumento do apetite.
Além disso, algumas pessoas relatam uma sensação intensa de peso nos braços e nas pernas. Esse sintoma é conhecido clinicamente como “paralisia de chumbo”.
Também pode existir maior sensibilidade à rejeição. Críticas, afastamentos e situações interpretadas como rejeição podem provocar sofrimento intenso e afetar relacionamentos.
No entanto, nenhum desses sinais, isoladamente, confirma depressão.
Quando observar com mais atenção
Dormir demais pode ser consequência de uma rotina cansativa. Comer mais pode acontecer em períodos de estresse. Da mesma forma, indisposição física pode ter diferentes causas.
Por isso, o mais importante é observar o conjunto das mudanças.
A duração, a intensidade e, principalmente, o impacto na vida cotidiana ajudam a mostrar quando é hora de procurar avaliação profissional.
Mudanças persistentes que começam a prejudicar trabalho, estudos, relacionamentos, autocuidado ou atividades rotineiras merecem atenção.
Além disso, não é necessário esperar que todos os sintomas apareçam ao mesmo tempo para buscar ajuda.
Diagnóstico não depende da aparência
Não existe uma imagem única de alguém com depressão.
Duas pessoas podem receber o mesmo diagnóstico e apresentar sintomas bastante diferentes.
Além disso, o fato de alguém trabalhar, estudar, conversar, sorrir ou participar de momentos agradáveis não permite concluir que essa pessoa esteja bem ou mal clinicamente.
O diagnóstico de depressão depende de avaliação clínica realizada por profissional habilitado, considerando sintomas, duração, intensidade, histórico e impacto na vida.
Da mesma forma, diferenciar as características do quadro ajuda na definição do tratamento.
Tratamento é individual
A abordagem depende de cada caso.
Psicoterapia, medicamentos e outras estratégias podem fazer parte do tratamento conforme o diagnóstico, a intensidade dos sintomas, o histórico da pessoa e outras condições de saúde.
Por isso, medicamentos antidepressivos não devem ser iniciados, interrompidos ou modificados sem orientação médica.
Na prática, conhecer as diferentes formas pelas quais a depressão pode aparecer ajuda a substituir julgamentos por atenção.
Às vezes, alguém consegue sorrir, aproveitar uma noite com amigos ou comemorar uma boa notícia e, ainda assim, enfrentar dificuldades importantes quando aquele momento termina.
Saúde mental não pode ser medida apenas pelo que conseguimos enxergar de fora.

