Livro Sinto Muito, de Raissa Ramos Ferreira Pedroli, sobre luto e perdas.
Psicóloga e psicanalista Raissa Ramos Ferreira Pedroli lança “Sinto Muito”, livro que reúne reflexões, experiências clínicas e memórias sobre o luto.

“Sinto muito.” Duas palavras que quase todo mundo já disse quando alguém perde uma pessoa querida. Às vezes, é tudo o que conseguimos oferecer. Depois, entretanto, vem a parte mais difícil: continuar presente quando as palavras acabam.

É justamente desse lugar que nasce “Sinto Muito”, livro da psicóloga e psicanalista Raissa Ramos Ferreira Pedroli, especialista em Lutos e Perdas. A obra será lançada no próximo domingo, 27 de setembro, em Campo Grande.

Em vez de ensinar alguém a “superar” uma morte, Raissa questiona a própria ideia de que o sofrimento precisa seguir um cronograma. Além disso, discute o que acontece quando o mundo segue normalmente, mas quem perdeu alguém continua convivendo com a ausência.

Quando não há novidade

Um dos capítulos do livro se chama “Notícia velha”. A expressão nasceu de uma situação comum no luto. Depois de algum tempo, as pessoas perguntam como alguém está e, muitas vezes, esperam ouvir que houve alguma melhora.

No entanto, nem sempre existe algo novo para contar. “A pessoa continua morta, a falta continua ali. Parece que existe uma expectativa de que, depois de algum tempo, ela tenha alguma melhora para contar”, explica Raissa.

Por isso, o livro muda o foco. Em vez de falar somente sobre quem morreu, a autora olha para quem ficou.

Ao mesmo tempo, a obra conversa com amigos e familiares que querem ajudar, mas não sabem exatamente o que fazer.

Sobre a morte, realmente não há mais o que fazer. A pessoa morreu. Mas há muito o que fazer sobre a vida de quem ficou”, afirma.

Quando o consolo machuca

“Você precisa ser forte.” “Foi melhor assim.” “Você precisa seguir em frente.”

As frases geralmente carregam uma tentativa de ajudar. Entretanto, para quem está vivendo uma perda, elas também podem aumentar o sofrimento.

Raissa chama esse comportamento de “a crueldade do consolo”. É aquela necessidade de preencher o silêncio com uma explicação, um conselho ou uma promessa de que tudo ficará bem.

Em alguns momentos, portanto, estar presente pode ser mais importante do que encontrar a frase perfeita.

A morte não é justa. Não é boa, não é legal. Não existe uma maneira de transformar aquilo em algo ‘ok’”, diz a psicóloga. Para ela, diante da perda, nem sempre existe uma solução para oferecer. Existe presença.

Luto também está nas redes

O livro também aborda uma transformação mais recente: a forma como as redes sociais passaram a participar do luto. Fotos permanecem publicadas. Perfis continuam disponíveis. Além disso, lembranças podem reaparecer inesperadamente na tela do celular.

Assim, a ausência também ganhou uma dimensão digital.

Raissa observa ainda que a morte deixou de ocupar apenas o espaço privado. Nas redes, segundo ela, também existe curiosidade sobre as circunstâncias da morte e uma exposição pública do sofrimento.

Uma história que começou na infância

A relação de Raissa com o tema começou antes mesmo da Psicologia.

Ainda criança, ela teve contato com a morte de uma maneira que descreve como “muito crua”. Somente depois, percebeu que falar diretamente sobre morrer não era algo natural para muitas pessoas.

Essa experiência também aparece no livro.

“Essa proximidade me deixou sem medo de estar perto, de fazer as perguntas difíceis e de escutar conversas e respostas dolorosas”, conta.

Ainda assim, conhecimento profissional não significa imunidade à dor.

“Ser especialista não protege a gente de sofrer. Eu conheço a teoria, acompanho pacientes, estudo o luto há anos. Mas, quando alguém que eu amo morre, eu também sou uma pessoa enlutada.”

Um livro para ter por perto

Com 132 páginas, “Sinto Muito” mistura experiência clínica, reflexões e memórias pessoais. Os textos podem ser lidos separadamente. Dessa forma, o leitor não precisa seguir necessariamente uma leitura linear.

A intenção também não é entregar respostas prontas. A autora define o livro como uma espécie de companhia para quem perdeu alguém — e para quem permanece por perto tentando ajudar.

Eu pensei nele como uma companhia. Uma coisa que a pessoa pudesse levar na bolsa, deixar no carro, na cabeceira, abrir quando tivesse vontade.”

Serviço

Livro: Sinto Muito
Autora: Raissa Ramos Ferreira Pedroli
Lançamento: 27 de setembro de 2026, domingo
Editora: Instituto de Formação e Capacitação Ser
Páginas: 132
Venda: Clínica do Luto (@clinicadoluto)

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