Sair para jantar pode exigir muito mais planejamento quando existe o risco de contaminação cruzada por glúten. Em Campo Grande, um restaurante japonês transformou justamente essa preocupação em parte central da cozinha.
O Moai Sushi, na Rua Maranhão, 460, desenvolveu um cardápio com opções preparadas para atender pessoas com doença celíaca. Entre elas estão sushi, sashimi, hot, yakisoba e até uma versão sem glúten do sobá.
A proposta nasceu da própria história de Régia Lucena, uma das responsáveis pelo restaurante. Diagnosticada com doença celíaca em 2005, ela conhecia de perto as dificuldades de encontrar lugares onde pudesse comer com tranquilidade.
Ao lado dela está Rômulo Rodrigues, seu marido e responsável técnico pelo restaurante. Já experiente na cozinha, ele desenvolveu pratos a partir das necessidades de Régia e dos cuidados exigidos para atender pessoas com doença celíaca.
Não basta retirar o glúten
Um dos principais desafios está em algo que nem sempre aparece no cardápio: a contaminação cruzada.
Um prato pode não levar ingredientes com glúten e, ainda assim, entrar em contato com utensílios, superfícies ou alimentos que contenham a proteína.
Por isso, o processo do Moai começa antes mesmo do preparo.
Segundo Régia, embalagens e ingredientes passam por cuidados específicos antes de entrar nas áreas de produção. Além disso, utensílios, esponjas, pias e espaços de trabalho são separados.
Na sala onde os sushis são preparados, por exemplo, o estabelecimento informa que não entram produtos com glúten. As frituras feitas nesse espaço também seguem a mesma regra.
Os funcionários também recebem treinamento. O processo inclui orientações sobre o glúten, os procedimentos internos e os cuidados necessários para atender pessoas com doença celíaca.
Hot e até sobá sem glúten
O desafio seguinte de Régia e Rômulo foi não transformar segurança alimentar em um cardápio limitado. Sushi, sashimi e outros pratos frios estão entre os carros-chefes da casa. Entretanto, o restaurante também desenvolveu versões de receitas que tradicionalmente podem conter glúten.

É o caso dos hots, normalmente preparados com farinha panko. A equipe testou diferentes farinhas até encontrar uma alternativa sem glúten que funcionasse na receita. Além disso, há versões de yakisoba e sobá com macarrão de arroz.
No caso do sobá, a adaptação ganha um significado especial em Campo Grande, onde o prato faz parte da identidade gastronômica da cidade.
Régia relata que crianças e adultos chegam ao restaurante com o desejo de experimentar pratos que antes não faziam parte de suas possibilidades por causa da restrição alimentar.
Comida para todos
Apesar de todos esses cuidados, a proposta do Moai não é funcionar apenas para pessoas com doença celíaca. Esse, inclusive, foi um dos desafios desde o início.
A intenção de Régia Lucena e Rômulo Rodrigues era desenvolver pratos que também conquistassem quem não possui restrição alimentar. Assim, “sem glúten” não precisaria ser a única razão para escolher o restaurante.
Rômulo buscou desenvolver receitas com sabor e textura próximos aos pratos tradicionais. Para o casal, a experiência gastronômica deveria vir antes do rótulo.
Um exemplo aparece fora do próprio restaurante. Às segundas-feiras, a equipe monta uma operação no condomínio Terras do Golfe. Segundo Régia, grande parte do público não possui restrição alimentar e consome normalmente os pratos preparados sem glúten.



A experiência reforça uma ideia defendida pelo casal: comida inclusiva também precisa ser comida que todos tenham vontade de comer.
Poder sair para jantar
Talvez seja justamente aí que esteja o ponto mais humano dessa história. Para quem convive com a doença celíaca, comer fora pode significar perguntar sobre ingredientes, explicar procedimentos à cozinha e avaliar constantemente o risco de contaminação.
Régia conhece essa rotina desde o diagnóstico.
“O que nós queremos proporcionar para quem antes não podia frequentar um restaurante japonês? Você poder ter a liberdade e o prazer de conviver em sociedade.”
A fala resume uma das motivações por trás do Moai. Para Régia, poder comemorar uma data, jantar com a família ou simplesmente decidir sair para comer também representa inclusão.
Ela relata, inclusive, a experiência recente de uma cliente que encontrou o restaurante por meio de um aplicativo voltado à alimentação segura para celíacos. Ao descobrir as possibilidades do cardápio, a cliente se emocionou.
Mais do que adaptar uma receita, portanto, a proposta envolve algo bastante cotidiano: poder sentar à mesa com amigos ou familiares e aproveitar a refeição com mais tranquilidade.
Uma história que começou no delivery
O Moai foi registrado em 2020 e começou a operar em outubro de 2021. Régia é de Goiânia e Rômulo, da Bahia. O casal chegou a Campo Grande depois que ele recebeu um convite para chefiar um restaurante na cidade. Eles gostaram da capital sul-mato-grossense e decidiram permanecer.
Com poucos recursos, começaram pequenos e inicialmente apostaram no delivery. Desde então, o restaurante cresceu mantendo uma proposta informal e com atenção ao preparo dos pratos.
Sushi, sashimi e outros pratos frios continuam entre os destaques. Além disso, a casa optou por não trabalhar com rodízio e prioriza o preparo no momento do pedido, buscando preservar o frescor dos alimentos.
Para Régia e Rômulo, porém, o resultado mais importante aparece quando uma pessoa com doença celíaca consegue compartilhar a mesma mesa com familiares e amigos sem precisar transformar sua restrição alimentar no centro daquele encontro.
Serviço
Moai Sushi
Endereço: Rua Maranhão, 460 – Campo Grande/MS
Horário de funcionamento: de quinta a terça-feira, das 18h à meia-noite.
Instagram: @moaisushi

