Pequi, guavira, bocaiuva, baru, sobá e até pastel de jacaré. Ingredientes e sabores familiares para muitos sul-mato-grossenses ganharam novos olhares durante a passagem de chefs renomados da gastronomia brasileira por Campo Grande.
Nos dias 14 e 15 de agosto, o Sebrae/MS promoveu visitas técnicas à Feira Central e ao Mercado Municipal. A proposta foi aproximar os profissionais da culinária regional e, ao mesmo tempo, dar visibilidade aos pequenos negócios que ajudam a construir a identidade gastronômica de Mato Grosso do Sul.
Entre os participantes estavam Jéssica Trindade, chef que atua nos restaurantes Chez Claude, Cantina do Claude e Madame Olympe, e Mara Salles, pesquisadora e chef à frente do Tordesilhas, em São Paulo.
Para além de uma visita turística, o roteiro proporcionou conversas com empreendedores, experimentação de produtos e contato direto com ingredientes do Cerrado e do Pantanal.
Sobá conquista chef carioca
Pela primeira vez em Mato Grosso do Sul, Jéssica Trindade percorreu a Feira Central e conheceu de perto um dos pratos mais tradicionais de Campo Grande: o sobá.
A parada foi no Jadi Sobá, negócio familiar com mais de 25 anos de história. Por lá, a chef experimentou o prato preparado por Jadi Tamasiro e destacou o cuidado na produção artesanal.

“Eu fiquei apaixonada e encantada pela dona Jadi. Ela faz um sobá fantástico”, afirmou.
Segundo Jéssica, o caldo de carne e o macarrão artesanal foram alguns dos elementos que mais chamaram sua atenção.
Depois, o roteiro continuou no Mercadão Municipal. Dessa vez, entraram no cardápio sabores ainda mais inusitados para quem chega de fora: pastéis de jacaré e avestruz.
As receitas são da Pastelaria do Milton, que oferece mais de 60 sabores.
Além das opções mais tradicionais, o empresário José Milton Caetano trabalha com recheios de jacaré, avestruz e filé de pacu.
Para ele, receber profissionais de outras regiões também gera uma troca importante. “A gente sempre aprende algo”, destacou.
Mercadão surpreende pela organização
Quem também percorreu o Mercado Municipal foi Mara Salles. Com mais de três décadas de atuação à frente do Tordesilhas, a chef já conhecia Mato Grosso do Sul, mas encontrou novos motivos para explorar a gastronomia local.
Durante a visita, ela adquiriu produtos como farinha produzida na comunidade quilombola Furnas do Dionísio, cachorrada — doce artesanal de leite talhado — e pimentas.

Além dos ingredientes, Mara destacou a organização do Mercadão.
“É um mercado incrível, tem coisas gostosas, um lugar limpo, muito organizado”, afirmou.
Atualmente, o espaço conta com 77 boxes e 145 bancas. O público encontra produtos regionais, carnes, pescados, pastelarias e uma feira anexa com itens indígenas.
Segundo o vice-presidente do Mercado Municipal, Ronald Kanashiro, parte da transformação do espaço ocorreu a partir de um trabalho de organização realizado nos últimos anos, inclusive com apoio do Sebrae/MS.
Assim, a visita dos chefs também funcionou como oportunidade para avaliar avanços e discutir possibilidades de melhoria.
Pequenos negócios entram no radar
Um dos objetivos centrais da iniciativa foi justamente criar conexões que dificilmente aconteceriam em uma programação convencional.
Para a analista de gastronomia do Sebrae/MS, Laís Maluf, colocar chefs reconhecidos diante de pequenos produtores e empreendedores cria uma relação de troca.
De um lado, o profissional amplia seu repertório ao conhecer ingredientes, técnicas e histórias. Do outro, quem produz localmente pode enxergar novas possibilidades para o próprio negócio.
Além disso, o contato pode abrir caminhos para mercados e parcerias.
“É esse tipo de conexão que fortalece a nossa gastronomia de verdade, porque coloca luz sobre quem sustenta essa cadeia lá na base”, explica Laís.
Pequi também pode virar sobremesa
As visitas fizeram parte de uma programação paralela ao Mesa ao Vivo, realizado pela primeira vez em Mato Grosso do Sul.
O evento reuniu nomes da gastronomia em palestras, aulas-show e jantares especiais.
E alguns ingredientes regionais também foram parar nos pratos dos chefs.
Jéssica Trindade preparou o “Onça Pintada”, um ravioli de pintado, rabada braseada e demi-glacê de pé de galinha. A apresentação do prato foi inspirada na pele do felino símbolo do Pantanal.

Já Mara Salles mostrou que o pequi não precisa ficar restrito às receitas salgadas.
A chef apresentou uma sobremesa feita com creme anglaise de pequi, compota de maracujá e suspiros de jatobá. A receita, inclusive, integra o cardápio do Tordesilhas.
Para Mara, trabalhar com ingredientes do Cerrado exige conhecimento justamente pela intensidade dos sabores.
“Os ingredientes são incríveis, são muito doces ou muito amargos. Você tem que ter muito empenho para tirar deles o melhor”, explicou.
“É um mundo que está para ser descoberto”
Depois de experimentar os sabores e conhecer quem trabalha diariamente com eles, a passagem por Mato Grosso do Sul terminou deixando vontade de voltar.
Jéssica afirmou que não esperava encontrar tamanha diversidade no Estado. Além disso, a chef demonstrou interesse em conhecer melhor os ingredientes locais e avaliar possibilidades de incorporá-los à própria cozinha.
Mara também saiu com novas descobertas, especialmente em relação aos frutos dos coqueiros do Cerrado.
“Eu acho que é um mundo que está para ser descoberto, que precisa de calma e de tempo para você mergulhar nele. Eu quero voltar outras vezes”, afirmou.
No fim das contas, ingredientes que fazem parte do cotidiano de Mato Grosso do Sul ganharam uma vitrine diferente.
E, quando chefs reconhecidos nacionalmente descobrem valor no pequi, na bocaiuva, no sobá ou naquele pastel do Mercadão, quem também ganha visibilidade são as pessoas que mantêm esses sabores vivos todos os dias.
