Na edição que celebrou dois anos de trajetória, a Feira Borogodó reuniu cerca de 300 expositores e milhares de visitantes, consolidando-se como um dos principais espaços de economia criativa, cultura e empreendedorismo de Campo Grande – Foto: Vinicius Bracht

Em uma cidade onde as manhãs de domingo costumam ser marcadas pelo encontro entre famílias, amigos e espaços públicos, uma feira vem ajudando a escrever histórias que vão muito além do lazer. Entre barracas de artesanato, gastronomia, moda autoral, música e manifestações culturais, centenas de empreendedores descobriram uma oportunidade de transformar criatividade em renda e sonhos em negócios.

O movimento acontece na Feira Borogodó, que em apenas dois anos se tornou uma das principais referências da economia criativa em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. A cada edição, cerca de 300 expositores ocupam a Praça Coophafé para apresentar produtos desenvolvidos pelas próprias mãos, carregados de identidade, cultura e originalidade.

Por trás de cada barraca existe uma história. Algumas começaram como hobby. Outras nasceram da necessidade de sobreviver. Há ainda aquelas que surgiram por acaso e acabaram unindo famílias inteiras em torno de um propósito comum.

Juntas, essas trajetórias ajudam a explicar por que a economia criativa vem sendo apontada como uma importante ferramenta de desenvolvimento econômico e inclusão produtiva.

O sonho de criar uma feira diferente

A Feira Borogodó nasceu da iniciativa dos produtores culturais Jenny Benitez e Felipe Monteiro. A proposta era criar um evento que valorizasse a cultura sul-mato-grossense, fortalecesse pequenos produtores e oferecesse acesso gratuito à cultura e ao lazer.

Jenny Benitez e Felipe Monteiro, criadores da Feira Borogodó. O evento, que nasceu para valorizar a cultura sul-mato-grossense, tornou-se uma vitrine para pequenos empreendedores e uma importante ferramenta de geração de renda em Campo Grande – Foto: Feira Borogodó

A Feira Borogodó nasceu da vontade de fazer uma feira cultural e de economia criativa que tivesse como foco a valorização da cultura sul-mato-grossense, dos trabalhos artesanais carregados de cultura e identidade, fomentando a economia local e proporcionando ao público acesso gratuito à cultura“, explica Jenny.

Desde o início, a expectativa era construir um projeto de grande porte.

“Sabíamos que, para manter uma feira independente com a qualidade que queríamos entregar, precisaríamos de pelo menos 200 a 250 expositores. Hoje reunimos cerca de 300 expositores por edição e nosso formulário já conta com mais de 2 mil cadastros.”

Mais do que um evento, a feira passou a funcionar como uma plataforma de oportunidades.

Segundo Jenny, o principal resultado não está apenas no público presente, mas no impacto gerado na vida dos participantes. “O que mais nos conforta é saber que os nossos expositores tiveram boas vendas e que a Feira Borogodó pôde proporcionar um complemento significativo na renda de muitas famílias.

Ao longo desses dois anos, os organizadores acompanharam histórias de empreendedores que encontraram no evento uma oportunidade de crescimento e pertencimento.

A Feira Borogodó proporcionou um sentimento de pertencimento para muitos empreendedores, tirando inclusive algumas pessoas de situações de vulnerabilidade. Recebemos relatos constantes de que a feira hoje é a principal, ou uma das principais rendas familiares.

Quando a criatividade se transforma em desenvolvimento

Para a superintendente de Economia Criativa de Mato Grosso do Sul, Luciana Azambuja, a força desse modelo está justamente na capacidade de transformar conhecimento, cultura e inovação em oportunidades concretas.

Gosto de conceituar a Economia Criativa como um modelo de negócio que transforma criatividade, conhecimento, cultura e inovação em produtos, serviços e experiências capazes de gerar valor econômico, social e cultural.

Segundo ela, as feiras criativas possuem uma característica que as diferencia de outros formatos de comercialização.

Enquanto as feiras tradicionais ou culturais fazem venda ou revenda de produtos industrializados, nas Feiras Criativas temos como foco a criatividade, a sustentabilidade e, principalmente, a forma autoral e artesanal de produção, normalmente em pequena escala.

Esse modelo fortalece não apenas a economia, mas também a identidade cultural dos territórios.

Valorizar o artesanal e o autoral é investir em identidade cultural, originalidade e conhecimentos que muitas vezes são passados de geração em geração.

Na avaliação da superintendente, o impacto vai além da comercialização. “A Economia Criativa gera renda e promove o empreendedorismo quando transforma uma ideia em desenvolvimento econômico. Ela faz o dinheiro circular no território e permite que uma pessoa participe de uma feira criativa e obtenha renda imediata. É uma fonte inesgotável de renda e dignidade.

A advogada que encontrou um novo caminho

A história de Francyanne Loubet Costa representa o início de uma jornada empreendedora. Advogada de formação e profissional da área da saúde, ela sempre teve o artesanato como hobby. Tudo mudou quando recebeu uma encomenda de presentes personalizados de uma amiga.

A experiência deu origem ao FL Ateliê Criativo, especializado em pinturas artesanais em cristal, vidro e porcelana. Sem loja física, Francyanne encontrou nas feiras uma oportunidade de apresentar seu trabalho ao público. Sua primeira participação na Feira Borogodó trouxe resultados imediatos.

Enquanto personaliza peças diante dos visitantes, Francyanne representa uma nova geração de empreendedores que transformam criatividade em oportunidade de renda – Foto: Vinicius Bracht

Eu não fui com a expectativa muito alta por ser minha primeira feira, mas tive um retorno excelente. Foram R$ 700 em vendas no dia e muitas conexões que se transformaram em encomendas depois.

Para ela, o principal impacto não acontece apenas durante o evento. “A feira acontece em um domingo do mês, mas os resultados reverberam pelo resto do mês.

Embora ainda mantenha sua profissão principal, ela já consegue visualizar uma mudança de trajetória. “Eu consigo enxergar essa transição acontecendo de forma muito mais rápida por causa da minha participação na feira.

O empreendedor que descobriu o potencial do próprio negócio

Se Francyanne representa o começo de uma jornada, Matheus Sobrinho simboliza o momento em que um empreendedor percebe que sua ideia realmente pode dar certo.

Ao lado do sócio Dirlei Oliveira, ele criou a Cuscuz Mandacaru, especializada em cuscuz nordestino recheado. A participação na Borogodó foi determinante para essa descoberta.

Foi uma das primeiras feiras que fizemos e o faturamento dela é consideravelmente maior do que o de outras feiras que participamos.

A fila em frente à Cuscuz Mandacaru representa mais do que vendas. Para os empreendedores, foi a confirmação de que um sonho poderia se transformar em negócio – Foto: Vinicius Bracht

Mas o momento que mudou sua percepção sobre o negócio veio de uma forma simples. “Foi a primeira feira em que formamos uma fila de espera para comprar o cuscuz.”

Hoje, a atividade representa a principal fonte de renda dos dois sócios. Na avaliação de Matheus, o crescimento da empresa está diretamente ligado à visibilidade conquistada no evento.

Estaríamos bem atrás do que alcançamos até hoje, porque a Feira Borogodó é a nossa feira mais lucrativa.

Quando empreender significa recomeçar

Entre todas as histórias reunidas, poucas traduzem tão bem o impacto social da economia criativa quanto a trajetória da empreendedora Vivi.

Durante 42 anos, ela trabalhou como cabeleireira. Ao mesmo tempo, dividia a rotina com os cuidados dedicados ao marido, que permaneceu tetraplégico por mais de três décadas.

Quando a pandemia comprometeu sua renda, ela precisou encontrar uma alternativa. Foi nas feiras criativas que surgiu a resposta.

O Vivi Pastel Gourmet nasceu com o intuito de ajudar. Na pandemia, foi o que salvou o meu ganho de vida.

O empreendimento cresceu e passou a gerar oportunidades para outras pessoas. Hoje, dois filhos trabalham diretamente no negócio. Dependendo da feira, entre cinco e seis trabalhadores temporários também são contratados.

São pessoas que muitas vezes utilizam esse trabalho para complementar a renda da casa.

A evolução da estrutura acompanha a própria trajetória da empreendedora. “Quando comecei, não tinha nada. Vi uma mesa que desmontava e era fácil de carregar no meu carro. Depois comprei uma banca de pastel, vieram as tendas e hoje temos um trailer.

O que começou como alternativa de renda durante a pandemia hoje reúne toda a família em torno do mesmo negócio – Foto: Vinicius Bracht

Mas o reconhecimento do público continua sendo sua maior conquista. “É emocionante quando vejo uma criança dizendo para os pais que quer comer o meu pastel. Ou quando encontro pessoas que vieram à feira porque foram indicadas para experimentar o Vivi Pastel Gourmet.

Um enxame, uma família e um novo propósito

Nem toda história empreendedora nasce de um planejamento estratégico. A do Apiário Trevejo começou com um enxame que seria exterminado.

Durante a pandemia, o pai de Loyara, Ozivio Lopes Trevejo, decidiu resgatar as abelhas e levá-las para uma chácara da família. A iniciativa foi motivada por lembranças da infância e pelo desejo de preservar a colmeia. Meses depois veio a primeira colheita.

Meu pai me trouxe um favo de mel e eu nunca tinha visto um de perto. Tirei uma foto e publiquei nas redes sociais. Logo começaram a surgir pedidos.

O que começou como curiosidade se transformou em empreendimento. Hoje, embora ainda não represente a principal fonte de renda da família, todo o lucro é reinvestido no crescimento da produção.

Para Loyara, porém, a maior transformação aconteceu dentro de casa. “Eu tinha meu negócio de estética e meu pai a oficina. Cada um tinha sua rotina. O apiário trouxe isso de bom: ficamos sempre juntos.

Loyara e o pai Ozivio – a família encontrou na apicultura um motivo para trabalhar unida e construir um sonho em comum – Foto: Vinicius Bracht

A participação nas feiras ampliou a visibilidade da marca e aproximou os produtores dos consumidores. Ao explicar o que as pessoas levam para casa ao comprar seus produtos, Loyara oferece uma definição que resume a essência da economia criativa.

Levam um pedaço do nosso sonho, amor, união, energia positiva e, claro, o mais puro e doce sabor da natureza.

Muito além das vendas

Os corredores da Feira Borogodó reúnem produtos, sabores, apresentações culturais e milhares de visitantes. Mas o que acontece ali não pode ser medido apenas pelo volume de vendas.

Os corredores da Feira Borogodó reúnem empreendedores, artistas e consumidores em um ambiente que fortalece pequenos negócios, fomenta a economia local e valoriza a produção autoral sul-mato-grossense – Foto: Vinicius Bracht

Em cada edição, a feira conecta pessoas, cria oportunidades e fortalece pequenos negócios que dificilmente encontrariam espaço nos canais tradicionais de comercialização.

A história da advogada que descobriu um novo caminho profissional; a dos empreendedores que encontraram fila para seu produto pela primeira vez; a da mulher que transformou um período de dificuldades em uma fonte de renda para a própria família; ou ainda a de uma família que encontrou nas abelhas um motivo para permanecer unida.

Todas essas histórias possuem algo em comum. Elas nasceram da criatividade. E se transformaram em trabalho, renda, pertencimento e futuro. Talvez seja por isso que a economia criativa não possa ser explicada apenas por indicadores econômicos.

Ela se revela nas pessoas. Como resume Vivi, ao falar sobre os pastéis que produz:

“Existe amor em cada massa que eu abro.”

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